Eu, o gato e a garota.

large

Só eu e um gato. Durante a maior nevasca dos últimos 10 anos, só resta no apartamento e quem sabe no prédio todo, só eu e um gato. Ah, não que eu esteja reclamando, longe de mim fazer isso já que o Andrew ta me pagando 200 dólares por dia, mas ainda sim, não era o que eu esperava do meu fim de semana. Mesmo que eu tenha prometido ao meu professor de Literatura que iria cuidar do Snow ( nome pouco criativo para o  grande, preguiçoso e incrivelmente gordo bixinho de estimação do professor mais brilhante e legal da faculdade) eu ainda tinha planos pro fim de semana, sair com  o Robb e assistir o jogo, ler alguma comédia romântica pra acreditar pelo menos por algumas horas que existem finais felizes já que nesse primeiro semestre da faculdade só li tragédias (obrigado Shakespeare e Dostoievski!) e quem sabe tocar alguma musica triste e fingir que estou apaixonado. Ok, eu disse que tinha planos mas não disse que eles eram bons!

Já se passaram dois dias e a neve não mostra sinais de diminuir, ainda bem que a geladeira está abastecida e as estantes cheias de livros, que ótimo que sou babá de um gato com um dono apaixonado por literatura como eu. Sinceramente não sei o que gosto mais de fazer, ler ou tocar meu violão velho, mas no fim das contas não importa, se o jornal estiver certo vou ter tempo de sobra pra fazer os dois, já que a nevasca vai durar alguns dias e Andrew e sua esposa Natasha ainda não vão conseguir voltar.

……….

São 19:00 horas da noite de sábado, estou tomando um banho e escuto a porta, pego rápido uma toalha e vou até lá, no caminho acho estranho já que pensei que era o único aqui, chego a quase a sorrir com o azar desse cara e penso em alguma piada pra fazer, mas quando abro a porta todas as palavra travam.

– Oi, desculpe incomod… Estava tomando banho?

Uma garota! Uma pequena, ruiva e linda garota!

– Es… Estava sim! Eu congelo, ela é realmente baixinha, tipo 1,50, cabelos vermelhos, longos e ondulados caem nas suas costas, possui sardas nas pálpebras e olhos verdes enormes, e inexplicavelmente penso em olhos de corsa, e ela me olha com uma expressão curiosa então finalmente percebo que não estou vestido.

– Melhor voltar outra hora? Ela pergunta e percebo que suas bochechas ficaram coradas, mas mesmo assim ela não desvia o olhar.

– Não! tudo bem, pode entrar! Abro espaço pra ela e então ofereço o sofá.

– Bom… Indo direto ao ponto, Andy me pediu pra dar uma olhada e vê se estava cuidando direitinho do Snow.

– Aquela bola de pelos está ótima, mas alguém tem de leva-lo a uma academia.

Ela sorri e percebo as covinhas no seu rosto. 17,18 anos não mais que isso.

– Prefiro ele gordinho.

– Oh claro que sim! Não é você que vai ter um ataque cardíaco.

– Não mesmo. Ela mantém o sorriso por alguns segundos e depois muda sua expressão.

– Sabe, quando Andy disse que algum aluno da faculdade ia cuidar do gato pensei que seria alguém mais velho! Olho para ela, preparo uma resposta de um jeito engraçado para falar que tenho 19 anos, mas simplesmente não consigo, apenas fico encarando ela pelo que parece muito tempo, mas não devem ter passado mais de alguns segundos.

– Certo… já que está tudo bem com ele e você ainda continua ai parado semi nu, acho melhor eu ir. Ela se levanta e dá uma piscadela, e dessa vez sou eu quem fica vermelho.

– Desculpa, deveria ter ido vestir algo. Penso comigo, sou um idiota, idiota, idiota…

– Sem problema, mas realmente preciso ir. Tenho que tirar os tacos do micro-ondas. Foi um prazer em conhece-lo estranho. Ela ri novamente e diz. -Jéssica Martin!

– Liam… Liam Simon!

Acena com a cabeça e então ela vai embora!

……….

– Ok, ok, mas oque acabou de acontecer aqui? -Digo falando pra mim mesmo ou quem sabe pro gato em cima do sofá – No meio da noite de sexta feira, durante oque parece ser a maior tempestade da minha vida, aparece uma garota na minha porta e eu nem consigo articular as palavras? Snow me olha com uma cara estranha.

– Nem vem gorducho, ela não era nem tão bonita assim! E realimente não era. Baixinha demais, com sardas e aquele cabelo… Mas mesmo assim, quando a vi alguma coisa se contorceu na minha barriga e meio que nada saiu. Não que eu fosse super pegador, mas não tenho problemas com garotas, sempre fui extrovertido e agradável e desde que eu me lembre, nunca fiquei sem alguém pra sair no sábado a noite sempre que quisesse.  Mas ainda tem o fato de Andrew não confiar em mim. Pra que mandar alguém pra checar se está tudo bem? Como seu melhor aluno, minha relação com o professor Wayland sempre foi ótima e nas últimas semanas de aula até criamos uma amizade, por isso estou aqui cuidado dessa coisa, mas pelo visto, não somos realmente tão amigos.

Fico pensando nisso o resto da noite, faço o jantar, peixe assado com batatas, e depois coloco comida pro Snow. Então pego o violão, uma garrafa de vinho, vou até a janela e fico o resto da noite ali, em algum momento, sonho com cabelos vermelhos e sardas e depois batidas na porta…

……….

Já é de manhã, vejo o sol entrar pela janela enquanto me levanto do chão. Minha cabeça dói e vejo o violão e o gato me olhando com um olhar de reprovação, pelo menos assim que vejo.

– Ah, até parece que nunca ficou de ressaca balofo!  Discutindo com um gato? Acho que faz mal a saúde ficar sozinho muito tempo. Enquanto reflito sobre isso, mais batidas na porta, murmuro que já vou e só quando eu abro lembro que só há outra pessoa no prédio.

– Noite boa? Ela pergunta, seu cabelo está preso em um rabo de cavalo e seu sorriso indica maldade.

– Err… Foi sim! Quer entrar? Estou vestido dessa vez. Brinco, parece que voltei ao normal e consigo falar de novo.

– Percebi! Ela entra, se senta olha ao redor e fala:

– Por quê não me convidou pra festinha? To ilhada aqui e bem entediada e sempre quis que alguém tocasse alguma musica só pra mim. – brincou e eu a encarei pra saber se estava falando sério, mas antes de consegui responder ela continuou – Vim saber se você está comendo direito, afinal já fazem dois dias que estamos presos nesse lugar.

Mesmo ela parecendo desconfortável falando isso, eu sorri ao ver sua preocupação comigo.

– Estou sim, Andrew deixou a geladeira cheia e antes de ir pra Universidade minha mãe meio que me obrigou a aprender cozinhar, então estou ótimo.

– Tudo bem, mas não sei se acredito em você – ela se levantou e andou pela sala sem olhar pra mim – que tal você fazer o almoço hoje? Quer dizer… Já que estamos sozinhos e você disse que é praticamente um chef.

Ela olha nos meus olhos e percebo suas bochechas coradas de novo e depois ela rapidamente corre para a porta.

– Ah, quer saber? Esquece! Foi uma ideia horrível! Nós nem nos conhecemos direito.

Eu fico observando aquela súbita mudança de reação, mas percebo que se não fizer algo vou perder o momento.

– Não! – eu digo – Quer dizer… Claro que você pode vir almoçar aqui, afinal com você mesma disse estamos sozinhos nesse lugar e um pouco de companhia humana será ótimo.

Ela dá meia volta e vejo um sorriso sem jeito nos seus lábios, suas covinhas aparecem, seus olhos parecem um mar verde, e seu cabelo agora um pouco fora do lugar está brilhando por causa da luz, então sinto um estranho frio na barriga e imediatamente percebo que estou ferrado.

– Que horas eu volto?

……….

– Certo Liam – Jéssica fala com a boca cheia – Essa é a melhor macarronada que já comi.

Ela realmente parece está adorando, acho que já está no segundo prato e fico me perguntando como uma garota daquele tamanho pode comer tanto. Ela chegou por volta do meio dia e me ajudou a por a mesa, conversamos um pouco sobre o porquê dela está presa sozinha aqui, e disse que seu voo para Nova Orleans foi cancelado então não pode passar as férias com a família, mas ainda não tive coragem de perguntar porque o professor não confia em mim.

– E você Liam? É de onde? Pergunta entre uma garfada e outra. Olho para o gato e vejo que ele também está achando tudo isso estranho.

– Sou de Foxborough! Sabe, perto de Boston. – ao ver sua cara tento explicar melhor – Sabe New England Patriots, Nova Inglaterra?

– Claro que sei, adoro o Brady e o Gronk não é nada mal também.

Fico impressionado.

– Conhece Futebol americano?

– Claro! Já sei, só porquê sou pequena você acha que tenho de ser uma patricinha?

Ela revira os olhos e eu fico meio com vergonha e tento consertar.

– Desculpe, é que não conheço muitas garotas que curtem um bom jogo.

– Tudo bem, também achei que você não curtia esportes mesmo tendo um belo abdômen. – Derrubei o copo e imediatamente limpei a agua da mesa, ela parou e imediatamente percebeu o que tinha dito, então tentou explicar. – Desculpe, só quis dizer que pelo fato do Andy tem dito que você era o melhor aluno da turma, eu meio que pensei que você fosse um nerd.

Eu assenti pra ela perceber que eu tinha entendido, então aproveitei o gancho e falei sobre o professor.

– Ei, você conhece bem os Wayland?

– Claro, somos vizinhos desde que me lembro. Você de ter percebido pelo modo como chamo o Andrew de Andy -ela não esperou uma resposta – Eles me disseram que você vinha.

Jogamos as louças na lavadora, peguei uma garrafa de vinho e ela duas taças então sentamos no sofá. Depois de algum tempo apenas bebendo em silêncio, e com algumas taças na cabeça resolvi tirar a história a limpo.

– Sabe, ainda tem algo que não entendo. Por quê o Andrew não pediu pra você cuidar do Snow ao invés de mim? Em algum momento ele deve ter falando com você, soube que perdeu o vôo e mandou me vigiar. Por quê não me dispensou logo e ficou com você?

Não pretendia ser tão direto e até mesmo grosseiro. Ela pareceu perder toda cor do rosto, suspirou e por um segundo achei que ouvi seu coração bater mais rápido, então falou.

– Liam, tenho uma confissão a fazer – Ela estava falando rápido e devagar aos mesmo tempo mesmo sem eu saber com isso é possível – Na verdade Andy não pediu pra eu te vigiar, ele e Natasha devem achar que estou com meus pais em Nova Orleans, eu menti esse tempo todo.

Fiquei sem reação, porque haveria de mentir? Ela é uma garota linda, ok a essa altura não há mais como negar que estou de quatro, então não tinha motivo pra inventar qualquer desculpa pra me ver, só precisava dizer. Olhei pra ela em busca de alguma resposta na sua expressão, mas tudo que eu vi foi um começo de lágrimas saindo por seus olhos e isso me fez ficar ainda pior.

– Desculpa Liam, eu menti e detesto fazer isso– as lágrimas começaram cair de vez – acho uma coisa horrível pra se fazer ainda mais com uma pessoa que parece tão legal quanto você.

– Tudo bem, tudo bem! – eu disse chegando perto dela e limpando seus olhos, nossa! ela parece tão frágil que tenho vontade de abraça-la, mas me contenho – Sem problema, mas Jessica, por quê mentiu?

Ela se afasta um pouco, meio surpresa com nossa proximidade, levanta o olhar e diz.

-É que fiquei sozinha no prédio e morri de medo – sua voz era baixa – ai lembrei que você iria estar aqui também, então inventei essas desculpas pra não ficar sozinha. – Eu a olhei de novo e pensei em toda situação e comecei a rir. Ela me fuzila com os olhos o que faz eu gargalhar ainda mais, então me joga o travesseiro e por fim também solta uma risada. – Seu idiota.

– Desculpa… Desculpa – digo finalmente voltando ao normal- mas Jéssica, você tem que admitir que foi engraçado.

– Tudo bem, foi. Mas que coisa Liam! Você realmente é muito esperto, como foi que pensou nisso tudo ainda mais depois do vinho?

– É porque não parei de pensar em você desde ontem! – Ela me olhou de novo e em seguida se levantou. Droga! Deixei escapar – quer dizer…

– Acho melhor eu ir, já é noite e estou cansada.

Ela inventou uma desculpa e meu coração deu uma pontada. Ela não está afim! Mas mesmo assim, fiz o inimaginável.

– Você não quer dormir aqui hoje? – Seus olhos quase saltaram do rosto e ela corou mais uma vez, por isso me apressei pra explicar. – É que você não disse que estava com medo? Então dorme aqui. Prometo ficar aqui na sala e o quarto tem chave. – Por um minuto ela pareceu que ia me dá um soco por sugerir isso, mas por fim pareceu considerar e resolvi dar mas um empurrão. –  Se ficar toco uma música só pra você.

………..

Ela saiu alguns minutos depois, na verdade eu praticamente a joguei porta fora antes que ela pudesse desistir, depois fui ao quarto pra arrumar a cama que dormi nesses últimos dois dias e então voltei pra sala, apaguei a luz e deixei apenas as luzes da rua iluminando o lugar. Me sentei em uma das cadeiras perto da janela e comecei a afinar o violão, quando Snow se aproximou ele pareceu entender meu nervosismo, fiz um carinho nele e disse:

– Ela não gosta de mim garoto – minha garganta se fecha, uma sensação de frio toma de conta de mim e percebo o quanto fico triste em saber disso. Snow ronrona e eu respondo –  Não, ela não está vindo aqui porque quer algo comigo,  está apenas com medo de ficar só. – Ele se vira e me encara-  para com isso! Para de me dá esperanças, senão vou trancá-lo no banheiro.

Ele fica mais alguns minutos e pula do meu colo, vai até o sofá e olha para trás como quem diz “desisto”, e se deita, então percebo que aquela ruiva não foi a única coisa boa que me aconteceu nessa nevasca, e após alguns segundos ela entra.

Ela trás consigo uma bolsinha com tudo que vai precisar, está vestida com um moletom do NYG e um short. Seu cabelo está solto e ela parece desconcertada com a situação, então resolvo cortar o gelo.

– Vou logo avisando! Nada de assédios, Tenho um gato e não tenho medo de usa-lo. Um esboço de sorriso aparece em sua boca, mas antes de responder ela observa a sala escura e me dá um olhar de “eu sabia!” e então pela milionésima vez quando estou perto dela, começo a me atrapalhar com as palavras. -Não pense que apaguei as luzes de propósito, quer dizer… Foi de propósito, mas não porque eu pensei que iria me dar bem essa noite…. E sim porque tenho vergonha de tocar para outras pessoas e….

Tudo bem – Ela me corta, coloca suas coisas na mesinha de centro e senta na cadeira de frente com a minha. Ainda parecendo envergonhada, mas um pouco mais a vontade se vira e olha para mim. – Confio em você! Sabe, não deveria… Não depois desse meu primeiro ano de faculdade, mas de algum modo, acho você uma pessoa realmente boa e mesmo não tirando os olhos da minhas pernas – ela sorri pra mostrar que está brincando – Sei eu não vai fazer nada que eu não queira.

Fiquei meio sem saber o que ela quis dizer, mas não estava mais disposto a bancar o idiota e continuar ficando sem palavras. De agora em diante, atitude!

– Seu primeiro ano foi tão difícil? – perguntei- Quero dizer… Em relação a tudo, amigos, estudos, namorados…

– Foi sim! – Ela se ajeitou com uma almofada – Mesmo morando aqui mesmo em Nova York com meus pais desde o Ensino médio, meus amigos todos se espalharam pelo país e quando falo todos os meus amigos, falo apenas de Adam e Lucy. -Sorrio junto com ela – Também teve o lance dos idiotas que acham que porque sou caloura tenho de transar em todas as festas e detalhe, nem sou de ir em festas e nem ao menos tive um namorado. Até surgiu o Charlie, um garoto que me paquerava no refeitório, mas ele só era um gostosão interessado em basquete e se sou ruiva por completo. – ela parece pensar nas revelações que me fez, surpresa porque as fez, e então quando penso que vai se desculpar pela sinceridade ela pergunta:  – E você?

– Eu? Bom… Pra mim também foi um pouco difícil.  Acho que sempre é difícil quando nos mudamos, mas estou adorando o curso e mesmo com saudades de casa até fiz um amigo. -sorrio pra ver que estou brincado, mas ela ignora.

– O que você vai fazer?

Suspiro, não é algo que eu tenha vergonha de comentar, mas todas as discussões que tive pra conseguir sim, porém de algum modo falo tudo. De ter passado pra fazer Direito na Columbia como meu pai sempre quis, de ter dito que também me candidatei a NY State pra cursar História da Arte, as brigas com meu pai depois disso, o modo como eu disse que após ter se separado da minha mãe e a feito sofrer, ele não tinha mais nem um direito de se meter na nossa vida e em como minha mãe e irmã me apoiaram nisso tudo. No meio das palavras, senti as lágrimas queimarem no meu rosto, e quando eu olhei para Jéssica vi apenas um sorriso. Não um triste ou indiferente, apenas um sorriso. A partir dali não tinha mais como negar que estava apaixonado.

……….

Jessica não insistiu mais no assunto e fiquei grato por isso, mas então ela sugeriu algo que nunca estaria preparado pra fazer, nem mesmo no escuro:

– Vai tocar ou não? Eu assenti e peguei o violão. Estava tremendo e morrendo de vergonha, nunca em toda minha vida toquei pra alguém. É claro que minha família deve ter ouvido uma vez ou outra quando tocava no meu quarto e até mesmo Robb quando ia pro meu dormitório, mas sempre que eu percebia que alguém estava prestando atenção eu parava. É meio embaraçoso, mas sempre toquei pra mim mesmo. Sempre toquei pra colocar as coisas pra fora, nunca me preocupei se estava ou não tocando certo ou afinado e com isso conseguia me distrair de tudo, brigas, escola e relacionamentos nada legais. Respirei fundo.

– Pode ser qualquer música? Ela pensou por um momento e disse com um meio sorriso:

– Me surpreenda!

E foi o que eu fiz. Não foi de propósito, apenas comecei a tocar. No início eu nem mesmo sabia que musica era, apenas saiu, e conforme o ritmo ia aumentando a energia do momento explodiu, e no momento em que cheguei ao refrão, fechei os olhos… Jane don’t take your love town! Quando finalmente a melodia foi se dissipando, me permiti olhar pra Jéssica. Ela estava lá e ao mesmo tempo não estava. Simplesmente parecia que tinha se transportado pra dentro da musica e por fim quando voltou a si, lágrimas estavam nos seus olhos, mas ela sorriu e disse:

– Droga Simon! Fica difícil não gostar de você!

E dessa vez foi meu coração quem cantou.

………..

Ficamos ali até tarde, toquei mais músicas a maioria mais animada e conversamos de novo sobre faculdade e como ela quer cursar psicologia. Também sobre o fato de ter perdido o sotaque sulista, mas que deixou transparecer depois do vinho. Depois de um tempo ficamos em silêncio. Não um silêncio constrangedor de duas pessoas que mal se conhecem, e sim um silêncio de quem se sente a vontade um com o outro e de algum modo isso parece melhor que falar.

Quando ela anunciou que iria dormir, eu fiquei um pouco chateado. Não queria que essa noite acabasse, não queria que ficasse apenas na memória. Memória de uma noite em que me senti aliviado em colocar coisas pra fora que já estavam me prendendo há muito tempo e que só agora fiquei livre, livre pra me apaixonar.

Acompanhei ela até a porta do quarto e a senti ficar tensa.

– Então boa noite né? Eu disse mas não me movi.

– E se amanhã parar de nevar? Ela disse um pouco ansiosa.

– O que? Eu perguntei surpreso mas finalmente entendi.

– E se amanhã parar de nevar – ela repetiu – E se os aeroportos funcionarem?

– Se Andrew e Natasha voltarem? Senti meu coração saltar.

– Se eu for pra Nova Orleans e você pra Boston? Ela riu nervosa.

– Se eu não quiser que essa noite termine? Digo e me aproximo.

– Se eu não quiser que essa noite termine? Ela repete e fecha os olhos

– Ela não precisa terminar! Respondo tanto pra mim quanto pra ela e a puxo pra junto do meu corpo. Fechamos os olhos e nossos lábios se tocam. Sinto uma corrente elétrica passar pelo meu corpo e atravessar o dela. Entramos porta a dentro e caímos em algo.

– SNOW!!! Gritamos! Ele estava em cima da cama, nos olhou e saiu com uma ar de indiferença, mas eu sabia o que ele queria dizer: Viu como eu estava certo? Nós rimos e continuamos. Seu corpo contra o meu e nossos lábios cada vez mais juntos. Quando finalmente nos livramos da nossa roupa e agarrei seu corpo mais uma vez, tudo se dissipou! O mundo lá fora estava branco, e não existia nada além da janela do apartamento. Nem meu pai ou Boston, nem Charlie ou Nova Orleans. Apenas aquilo era real. Nossos corpos se tornando um, nossa respiração ofegante e os corações batendo forte contra nosso peito, apenas isso nos lembrando que não é um sonho. Então terminamos do jeito oposto que começamos…. Juntos!

 ……….

Escrito por Alex Linhares.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s